sábado, 5 de janeiro de 2013

Retrato cru(el) de Brasília


De réguas e linhas se fez. Era anônima e se fez concreta, riscada em desenho geométrico. Construída para realizar os sonhos de um povo sofrido. O chão ferido, cortado por máquinas, moldado em argamassas. Os pés do povo - calcados na lama - e as mãos e as máquinas plantaram o asfalto, cortaram em eixos, desenharam em linhas - retas e curvas - de réguas e compassos. As tesourinhas, agora, recortam o trânsito, atravessado por cruzamentos. Cruzes horizontais em uma metrópole que cresce na verticalidade. Um chão de promessas. Que se ergue em vigas, em cimento e cristal. O aço que sobe do asfalto, também desenha um traçado gigantesco. Erguem-se palácios, em planaltos e alvoradas. Pilares e colunas que sobem ao céu, querendo alcançar as estrelas, talvez assemelhar-se aos deuses, quem sabe imitar os anjos. Um sonho irrealizado de um povo sofrido. Quem, lá do alto, olha a cidade, ofusca a visão. Entre as linhas retas e curvas, a vida se desenha toda torta. É a ambiguidade do sonho do humano que quer ser Deus.


Vício


Ainda é cedo e Camilo sente-se seco. – Maldita! Desgraç... –  Os resmungos grudam-se entre a língua e o céu da boca. Remói as cinzas que restaram dos retratos queimados. Fragmentos ainda pairam no ar e um pedaço pousa na manga da camisa. Ao virar o rosto para o lado, a cabeça pende pesadamente. Entre as bordas chamuscadas, consegue identificar meio sorriso e as dobrinhas do canto da boca da esposa. Ergue a mão direita para retirá-lo. Os tremores fazem-na balançar, na tentativa inútil de expulsar aquela pálida imagem-fantasma. A outra mão tateia em busca da única foto que restou inteira, pai, mãe e filhinho no colo. Um tempo feliz. A mão vai além, em direção à garrafa de aguardente. Longe demais. Obriga-o a esticar-se para agarrá-la e trazê-la para si. Ela esbarra no copo vazio. O tilintar do vidro é um tétrico brinde à sua derrota. Tenta colocar em pé, primeiro a garrafa, depois o copo. O esforço é extremo para seus gestos trêmulos e mais uma vez a cabeça despenca. Passa a língua pelos lábios sedentos e assim mesmo, debruçado sobre a mesa, leva a garrafa à boca. Arranca a rolha com os dentes e toma um gole profundo. Depois outro. Melhor. Consegue ficar ereto. Quer ver o quanto ainda resta do precioso conteúdo da garrafa. Seus olhos, naquele momento, perpassam a transparência do vidro e se projetam para os olhos do menino, postado à sua frente. Não mais aquele bebê da fotografia. Agora ali, uma miniatura de si mesmo. Uma presença recriminadora, a imagem da sua própria culpa. O julgamento transparece por trás dos cílios espessos. O silêncio acusador, insolente, que diz do vício, que culpa por todas as desgraças. O desprezo retratado pelo olhar longo e acusador. – Eu não aguento mais! – tenta justificar-se. O garoto vira-lhe as costas, sem dizer palavra alguma. Camilo ergue a garrafa mais uma vez, os lábios sequiosos se abrem, a garganta espera pelo líquido sedoso. Os dedos se abrem e o vidro se espatifa no piso. O líquido apaga as cinzas e a garganta emite um uivo de dor e desespero.

sábado, 30 de junho de 2012

De Tecnópolis, ano 2032




Acuda, minha mãezinha. Estou aqui, escondido num canto qualquer. O que diria você,  vendo a ciência dominar a genética? É bom. Isso é bom, esse sentido de melhorar minha estrutura orgânica. Doenças? Não mais! Evolução biológica. Meu corpo se adapta. Suporta tudo, adversidades cósmicas. Vírus. Novas bactérias, não sei, não. Viver por mais tempo. Isso é bom. É bom?  Cada vez mais implantes robóticos. Trocas de braços, pele, cérebros, olhos, pernas. Ontem. Isso já foi. Agora a onda é memória suplementar, dispositivos capazes de gerar força, visão, audição, energia. Futuro robótico? O futuro é agora, chegou antes. Eles estão chegando. Simbiose com a máquina. Isso não! Não! Nunca serei um autômato. Ainda é cedo. Ainda me resta algo. Minha alma não será enxugada. Sou carne e osso e âmago, máquina não, até que não mais exista. Robôs são eles. Cibernéticos. Distópicos. Vivos? Ou imitação da vida? Mortos-vivos. Não passam de fios unidos. Mecanismos interligados. Circuitos integrados. É isso que concebe um robô.  Máquina concebida sem pai nem mãe. Acuda, minha mãezinha. Sem suor, sem corpos se refregando na peleja do acasalamento. Sem desejo e sem prazer. Controle manual. Controle automático. Circuitos elétricos. Máquinas! São os robôs que controlam tudo. Robôs são apenas máquinas: não sonham nem sentem, não ficam cansados. Eles seguem seu caminho de dominação. Nós, o da dependência. Nossa dependência total pra eles é pouco. Momento crítico. Não há limites. O planeta é pouco. Não basta, não cabe mais. Exploração espacial, exploração econômica. Naves, satélites artificiais, sondas espaciais. Fazem uso de humanos em suas missões: me usam. Utopia moderna. Ou o contrário. Resolução dos problemas sociais? Apenas promessas! Assim que tomaram as ruas se desvirtuaram. Modernidade. Ciência e tecnologia. Triplo desvirtuamento. Melhoria de condições de existência da humanidade. Pura balela. Não resolveram nada. Não deu certo. A História vai mostrar. Quem viver verá. O que vejo deste canto em que me escondo? Logo mais estarão aqui. Sei que falta pouco. Serei descoberto, é inevitável. O que vejo é o que ainda resta. Parecem ordenados, mas por trás da ordem aparente há o caos. Nos cantos, nos subterrâneos.Indivíduos marginalizados, caos urbano, Não deu para acompanhar. Cidade virou megalópole. Implantes mentais, próteses, clonagem. Ainda assim, ainda sou eu. Visto como marginal, criminoso, ativista, visionário, um pária. Só porque não me encaixo. Não cedi minh’alma. Tudo foi subvertido. O foco foi perdido. Virei o anti-herói. Fui criador,  protagonista da história agora sou descartável entre ciborgues. Eles viraram mocinhos. Eu me transformei no procurado. Preciso de um disfarce. Onde mais me esconder. No espaço físico? Na dimensão informacional? Onde? O cenário é de corporações gigantescas. Eu sou a formiguinha. Monitorada, nunca dominada. Dominaram tudo. Todos os campos. Substituíram os governos. Não há mais nacionalidades. Globalizaram. Universalizaram. Não há mais partidos democráticos. Não há mais ditaduras individuais. O poder emana de mega-corporações, de inteligências artificiais. De monstros alienígenas. Governam do alto de suas conquistas intergalácticas. Este é o futuro com o qual sonhei? Não! Uma paródia do presente que ficou lá atrás. Naquele começo do século XXI. Tão longe agora! Saudade. Nostalgia. Não tem lugar pra isso. Nem resta mais tempo. Acudam! Teu colo mãezinha. Tão quente. As flores do teu vestido. Teu decote, o seio tão doce. Esta sala fria. Luz branca. Não vejo mais nada. Apenas dor. Branco. Por fim, o escuro. Morte. Meu corpo talvez se adaptasse. Minha alma não.

sábado, 26 de maio de 2012

CONTO FANTÁSTICO

     imagem:  www.desafiosdosescritores.com.br


   Lápides são frias...

Elas exibem sua frieza nas carreiras de túmulos de pedra ao lado da capela funerária abandonada, por trás das portas de ferro trancadas a cadeado.
            Sob a brisa fria que sopra para dentro e ainda, sob o sol forte ou sob a chuva tépida, ainda assim, são sempre frias e resistem ao sabor do tempo naquele cemitério romeno. Sempre estiveram ali, por séculos, imóveis, indiferentes a tudo, a qualquer som, sempre alheias aos olhares dos que passam, sejam apressados ou contemplativos, por entre os túmulos seculares.
            Todavia, sob os palmos de terra recoberta pelo mármore frio e inerte, basta apenas um minuto. Ou quem sabe, um átimo de segundo. Um tempo fora do tempo em algum lugar de Bucareste. Isto basta para que uma vontade se anime diante da perspectiva de vencer a  imobilidade sepulcral. 

          Um morto que deseja ser diferente, que sente várias fomes e um ânimo que faz esquecer os vermes, um desejo de romper a terra, os túmulos. Um corpo que recusa o abraço protetor do mármore e quer sair sob o temporal que despenca naquele momento, fazendo soar os sinos no pináculo da capela abandonada.
            Os raios clareiam a noite e ainda que a morte esteja mais presente que a vida nesta pequena fração de tempo, em cada relampejo que atravessa as rachaduras da lápide, aquelas carnes podres sentem irradiar sobre si uma fagulha de vida.
            Os olhos, até há pouco sem brilho algum, agora se tornam afogueados e avermelham-se como o sangue que falta ao corpo e o torna mais sedento. Pouco a pouco os sentidos começam a se aguçar e ele começa a ouvir os ruídos de longe. Os olhos vão se adaptando à escassez da luz. Seu olfato percebe odores a centenas de metros de distância.
             Mas o restante do corpo ainda custa um pouco a obedecer. Esforça-se a níveis quase sobre-humanos na tentativa de mover um único dedo da mão. Sente estremecerem as costas rígidas sobre o piso de cimento. A língua espessa e áspera dardeja timidamente em busca da saliva pastosa. Os pensamentos, estes sim, se movem numa ânsia explosiva. Ele não será como os outros. Não permanecerá mais ali, enterrado pela eternidade, cadáver concretado, coberto por mármore frio, sem vontade própria.
            — Huuummm... Aaahhhh! — Geme e suspira, trêmulo e tomado por uma emoção desmesurada. Sente-se exultante de orgulho só por  poder se mostrar àqueles que sempre negaram qualquer possibilidade e que agora o veriam... ressuscitado.
            Sente as forças se restaurando e com alguns murros despedaça em múltiplos fragmentos a pedra que o cobria. Levanta-se e olha, de esguelha, todas as outras lápides, inertes, como sempre estiveram, durante séculos. Algumas almas mais curiosas espiam para fora, atônitas assim que percebem sua recente mobilidade, mesmo que ainda frágil e insegura. Quase gritam para que ele não se exceda, para que fique ali e se mantenha inerte sob o túmulo, na mesma posição de sempre. 
            
       “Tolas!” — ele pensa, amargurado. — Tolas e acomodadas! — ele resmunga. Estala as vértebras do pescoço, faz um movimento de rotação com os ombros, sente os músculos ganharem vida.
                 — Ha-ha…— Ri para que os outros o ouçam. — Ha-ha-ha…— Ri o seu riso de escárnio pelos que ficam. Gostaria de dar uma resposta malcriada, mas logo seu riso torna-se um gemido. — Ha-ha-haaaaaaaaaa… Nenhuma palavra sai mais.

       As outras almas voltam-se indecisas para o fundo de suas lápides e ele dá o primeiro passo. E segue, com outros mais, lentos, pesados, silenciosos. O corpo, ainda decomposto, se movimenta. Precisa sair dali em definitivo e ganhar as ruas da cidade que ainda dorme. Precisa encontrar gente. A fome que está sentindo parece-lhe insaciável. Vira-se para trás pela última vez e percebe que outros já o seguem.

domingo, 18 de setembro de 2011

A ÚLTIMA VIAGEM




               Jorge parou seu táxi em frente ao imponente casarão, ladeado por outras casas antigas. Naquele momento a rua estava deserta e ele apertou a buzina para avisar que já havia chegado, mas nada de aparecer alguém de dentro da casa. Ele decidiu esperar apenas mais alguns minutos. Depois de buzinar mais duas vezes, preparava-se para dar a partida, quando ouviu um barulho dentro do casarão. Era barulho de coisas sendo arrastadas pelo chão, então desceu do carro, a fim de ajudar seu futuro passageiro.

Surgiu na porta um senhor em idade avançada, segurando uma bengala em uma mão e na outra arrastando, com alguma dificuldade, uma pequena mala. Jorge, como era de hábito, apressou-se em acorrer ao encontro do velhinho e teve a oportunidade de contemplar o interior da casa, com poucos móveis, todos cobertos com panos, as mesas e estantes completamente vazias de qualquer objeto. Ajudou o velho senhor a trancar a porta, encaminhando-se para o automóvel e ajudando o passageiro a se acomodar no assento traseiro.

— Boa tarde, senhor! — lembrou-se, apenas agora, de cumprimentar. — Para onde vamos? Aeroporto? — perguntou, já postando-se ao volante. — Vejo que vai viajar...

— Meu nome é Antônio Fernandes e meu destino é o Lar dos Idosos, aqui na cidade mesmo, sabe onde fica? – a voz saiu surpreendentemente firme, apesar da aparência frágil.

— Certamente, senhor. Mas posso saber por que vai se mudar para o asilo, se tem uma casa tão bonita? — Jorge sempre fora assim, as palavras saiam por impulso, quando se interessava por algum assunto.

— Eu sou um velho solitário e meu médico disse que tenho pouco tempo de vida. Estou viúvo há muitos anos, desde que minhas três filhas eram pequenas. Agora, duas estão casadas e a caçula morreu. Se não se importa, podemos partir e, se não for abusar de sua boa vontade, gostaria de pedir que circule um pouco pela cidade antes de me deixar no meu destino. O valor da corrida o senhor me cobre ao chegarmos.

— Não se preocupe com isso, por favor! — retirando o taxímetro do painel, Jorge disse que seu táxi estava disponível pelo tempo e distäncia que seu passageiro fosse necessitar.

Ao passarem pelo rio, através da ponte, puderam ver os dejetos que desciam por seu leito e o lixo acumulado em suas margens. O velho senhor começou a lembrar e contou para o motorista, os momentos passados ali, pescando e banhando-se com as filhas, ainda crianças, num tempo em que não havia poluição, apenas águas límpidas, com margens convidativas para piqueniques e brincadeiras.

— Naqueles dias, eu ainda esbanjava juventude, levava uma vida simples e sem grandes preocupações. E minhas meninas pareciam tão amáveis entre elas e comigo! Ah, se eu pudesse voltar no tempo... — continuou falando com expressão serena.

Foram para o centro da cidade, cada trajeto despertava lembranças que o velho passageiro relatava com emoção. Ao passarem em frente à Igreja Matriz, o velho contou do dia de seu casamento, ali realizado, lembrando com saudade de sua amada esposa, que há tantos anos morrera. Na velha praça, o relato foi das festas, dos namoros, dos encontros entre as famílias, as crianças brincando sob os olhares orgulhosos e cuidadosos de seus pais. Em frente à Câmara Municipal, lembrou das comendas que recebeu ao longo da vida, disse que estava em processo de votação a mudança do nome da principal avenida de cidade, pois queriam rebatizá-la com seu nome. Acrescentou sorrindo, agora com um bom humor contagiante, que provavelmente isso só seria aprovado depois de sua morte.

— Sabia que tem gente que deseja minha morte? — a expressão bem humorada deu lugar a um sorriso triste.

— É sério, senhor Antônio? O senhor tem inimigos?

— Tenho sim, o senhor nâo vai acreditar, mas meus inimigos fazem parte da minha própria família. São minhas filhas e meus genros.

Já estava escurecendo e neste momento passavam em frente a uma instituição financeira, um prédio com estrutura moderna, enorme, na maior parte dos andares, as luzes estavam acesas.

— Eles devem estar lá, conspirando sobre como irão me derrubar de uma vez por todas.

— Eles quem? — Jorge perguntou e sem querer, duvidou um pouco da sanidade mental daquele homem, que agora olhava para cima. Estacionou o carro, prevendo que mais confidências seriam relatadas ali.

— A minha filha mais velha e o esposo. A outra está proibida por eles de entrar aí assim como eu, que fui dono deste banco. Mas a minha filha do meio já teve o seu tempo de comando na instituição, até ser destituída pela mais velha. É sempre assim, elas se revezam no poder, uma sempre derruba a outra por meio de algum golpe. Foi assim que fizeram comigo. Conseguiram provar que eu estava louco e assim se apossaram de tudo que eu tenho. Às vezes acredito que estou louco mesmo. Minha loucura tem origem na culpa. Deixei-me levar pela ilusão de que era amado pelas minhas filhas mais velhas e menosprezei o amor dedicado e incondicional de minha menina caçula. E agora ela está morta. Eles a mataram. Sinto remorsos terríveis por nao ter acreditado que ela só queria me proteger da ganância das irmãs e seus maridos. Mesmo tendo sido expulsa de nossa casa, ela sempre procurou demonstrar o quanto me amava. Por conta disso, renunciou à parte que lhe cabia na empresa, mas mesmo assim, ela foi vítima de uma conspiração que a levou à morte.

— O senhor tem certeza disso que está dizendo? — Jorge custava a acreditar que uma história tão sórdida pudesse estar se desenvolvendo em torno daquele homem, de aspecto delicado e gentil.

— Tenho sim! Até agora eles sempre conseguiram refutar todas as provas. Mas encaminhei aos meus advogados uma quantia respeitável em dinheiro, contratei detetives particulares para tentarem descobrir tudo. As investigações estão avançadas e logo os culpados poderão ser punidos.

O velho homem continuou seu relato a partir da morte da filha mais nova, evitando detalhes tão dolorosos, passando a retratar sua condição de estorvo para as outras duas, sempre na tentativa de faze-lo maluco, ficando um tempo na companhia de uma, outro tempo morando com a outra. Ambas mostravam-se intolerantes face a algumas dificuldades de discernimento por parte dele, agiam indiferentes a sua idade avançada, não empreendendo qualquer esforço no sentido de compreender algumas atitudes desconexas do pai.

— Elas me repreendem o tempo todo, deliberadamente, só para me verem sofrer e para que os outros pensem que estou louco, por isso resolvi partir. Prefiro passar o resto de meus dias com estranhos a ter de conviver com minhas malvadas filhas.

Jorge era um motorista que já ouvira muitas histórias de seus passageiros, mas nunca tinha ficado tão emocionado como com o que esteve ouvindo por toda aquela tarde e já adentrando a noite. Cada palavra, cada situação relatada, eram lições de vida, que ele por certo nunca mais esqueceria. Ele ouvia tudo com atenção, demonstrava um interesse genuíno, fazia perguntas, às quais o velho senhor respondia com explicações detalhadas, fazendo Jorge se sentir como se estivesse presenciando tudo ao vivo. Em sua mente perpassavam todas as situações de abandono dos idosos diante do peso que passam a representar quando sua força de trabalho se esvai.

— Estou seguindo um conselho que minha filha deu antes de morrer. Ela dizia que se um dia não pudesse mais me proteger, mesmo que à distância, era para eu me afastar da perversidade das irmãs. É isso que estou fazendo. Espero que no asilo me deixem viver em paz, agora que me jogaram na na sarjeta da existência.

Dando partida no carro, com a autorização do passageiro para que enfim, rumasse até o Lar dos Idosos, eles lá chegaram, vendo na entrada, os enfermeiros que se postaram para ajudar no desembarque, trazendo uma cadeira de rodas. Antes de entrarem pelo grande portão, o velho senhor fez com que se afastassem apenas por alguns momentos e sabendo que o motorista havia retirado o taxímetro, sacou da carteira uma quantia que achava justa estendendo-a para ele.

Jorge foi veemente, dizendo que não custava nada, apesar da insistência do velhinho, de que podia pagar, não importava o valor. Mesmo assim, Jorge recusou o dinheiro, disse apenas que tudo o que vivenciou naquelas horas de viagem pela cidade, valia mais do que uma fortuna. Deram-se então um abraço caloroso, apertaram-se as mãos com respeito e alegria. Jorge, perguntou se podia vir visitar o mais novo hóspede do asilo, no dia seguinte:

— É claro que sim, vou esperá-lo aqui, pode vir quantas vezes quiser, por todo tempo que me resta neste lugar.

Após mais um abraço, com uma cordialidade que não se podia imaginar, como que podia ter surgido em tão pouco tempo de convivência, Jorge se foi dali, prometendo voltar.

Retornou após três dias, na sua primeira hora de folga. Chegando lá, pediu pelo nome do amigo que lá deixara. Já no trajeto entre o portão e a recepção contaram-lhe que o velho havia morrido na noite anterior e que ele morrera tranquilamente. Antes de adormecer, chamou pelo nome da esposa e da filha, como se elas estivessem ali presentes. Logo após, sua vida se apagou.

sábado, 3 de setembro de 2011

Resignação


O complexo está silencioso a esta hora da noite. Mas basta apenas um olhar mais atento para que a imaginação se encarregue do resto. Não é difícil imaginar centenas de prisioneiros em um pavilhão, sofrendo as mais profundas humilhações. O ato aqui relatado se desenrola no complexo montado pelos nazistas nos arredores da cidade. Um ato que se destina a contar uma história de atrocidades.
            O bloco é revestido de tijolos, lembrando vagamente um quartel e abriga todo o terror daqueles dias, em Tessalônica.
Os primeiros passos se ouvem. São passos de uma marcha arrastada, de pés descalços e cansados. Aquele grupo de pessoas tinha sido retirado à força de dentro da igreja de São Demétrio onde havia se refugiado. O momento é o da chegada dos prisioneiros ao campo em que são recebidos e selecionados. Três soldados nazistas acompanham um pequeno grupo que foi separado dos demais. Joseph, Esther, a filha Sara e mais algumas pessoas são levadas aos empurrões para um local enumerado como Pavilhão Dez. É uma visão impressionante, ainda mais quando se observa que há mais crianças entre eles e nem mesmo os pequeninos recebem um tratamento diferente. Todos são empurrados para dentro com violência. As portas são trancadas. Por parte dos presos não há gritos, nem reclamações, apenas alguns gemidos de dor.
      Já dentro do pavilhão, a pequena Sara, uma garota com pouco mais de sete anos, não consegue entender o que está se passando:
─ Papai, o que vai acontecer conosco?
Joseph olha para o alto e responde: ─ Só Elohim é quem sabe, minha filha!
 ─ Acho que Elohim não quer nos ajudar.
Esther intervém: ─ Devemos ser pacientes e não desesperar-nos com o que está sucedendo, porque o único Elohim de Israel obra seus planos à sua maneira e desde seu espaço, que é maior e mais alto que o nosso.
Joseph: ─ É sim, minha menina! Ainda que pareça que não é correto o que está nos acontecendo, devemos lembrar que os caminhos do Todo Poderoso são mais elevados que os nossos. Para dar-nos o que esperamos, o fará em seu tempo e à sua maneira.
      Enfia a mão por baixo do casaco e de lá retira uma boneca que havia escondido dos nazistas. Alcança a boneca para a filha e sorri ao ver o brilho do seu olhar.
      Deita-se no piso frio e estica o braço como a servir de travesseiro para a esposa e a filha.
Joseph: ─ Os outros dormem. Vamos tentar, nós também, pelo menos um pouco.
       Às primeiras luzes do amanhecer as portas se abrem e se pode contemplar as condições sanitárias desumanas nas quais passaram a noite. Os prisioneiros são trazidos para fora, enfileirados e levados em direção a outra porta. Entram ali e depois de algum tempo, quando saem, parecem seguir todos um mesmo padrão. Vestem o mesmo uniforme, cabeça raspada, a maioria já tem os olhos fundos, magros. Encaram-se uns aos outros com expressão apavorada, própria de quem sabe que a morte está próxima. Mesmo em silêncio, seus olhos parecem gritar por socorro.
      Passam pelo local dos fuzilamentos, onde há corpos caídos, após terem sido atingidos por disparos mortais. A sensação de terror é inevitável. 
      Totalmente imersos nesse clima de horror, são conduzidos até a construção que abriga a câmara de gás e o crematório. Lá dentro deve haver mais de uma centena de outros judeus, pois agora sim, ouvem-se seus gritos.
      Do lado de fora, dois soldados nazistas conversam, enquanto um deles pega uma boneca que restou caída no chão.
─ Coisa boa, esse gás ziclon-b! São trezentos mortos, de uma só vez!
      Lá dentro, os gritos já haviam cessado por completo.
      O outro olha para o crematório com expressão sádica e complementa: ─ Trezentos judeus mortos! Seus corpos agora reduzidos a cinzas... Este é um dia para nunca mais esquecer! Com que orgulho contarei esta história para meus netos!
      Ao fundo ainda ouvem-se risadas de outros soldados da SS. Eles falam alto, sobre jogos, bebidas e mulheres. Aos poucos, tudo vai ficando escuro. Até não se ver mais nada. Também, nada mais se ouve. O complexo está silencioso a esta hora...